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terça-feira, 26 de abril de 2011

__________________Há__________________



Amar só enquanto há mar.
Amar só, enquanto amar.
Amar, só enquanto há mar.
Há mar, só enquanto amar.
Há mar e Sol, enquanto amar.
Há mar, há Sol ,há eu, há môr.


segunda-feira, 14 de junho de 2010

Duas cebolas, três tomates, manteiga, café e sabão (ou Mar Adriático parte II)



E desceu correndo as escadas do “barato e vagabundo” quarto, que fedia à ressaca, tabaco e suor, trajando uma bermuda ainda desabotoada e um All Star vermelho – sem cadarço, comprado numa liquidação.

“ - Adriana! Adriana!”, gritava ofegante enquanto a moça de cabelos ondulados cruzava a esquina carregando sacolas de compras – possivelmente entre todas aquelas coisas, haviam duas cebolas, três tomates, manteiga, café e sabão.

Olhando assustada, a primeira coisa que ela pensou foi: “– Como esse idiota descobriu meu nome? Só pode ser um maníaco, um doente, um... um... um...”. Seus pensamentos foram interrompidos por algo que há muito ela desejava ouvir.

“ – Adriana, você quer ajuda pra carregar as compras? Posso te ajudar a aliviar esse peso.”

Imediatamente – como se uma espécie de interruptor tivesse sido acionado – Adriana desabou num choro. Alberto não podia, não conseguia, e nem sabia o que dizer. Só o peito molhado pelas lágrimas de Adriana já dizia tudo o que não precisava ser dito.

Conforme o impacto das palavras de Alberto foi passando, Adriana se deu conta da sua situação. Toda a carapaça de durona, forte, sólida, que lutara para construir, ruía sob os olhares de um homem que ela mal lembrava o nome. Afastou-se de Alberto, e com os olhos baixos e molhados, proferiu apenas um “- Me desculpe!”, meio soluçado.

Alberto continuava de pé, ainda não conseguia achar as palavras certas.

“- Você não tem idéia de quantos anos esperei por alguém que me ajudasse a aliviar todo o peso que sinto. Toda a dor que suporto. Todo o fardo que levo...”. Respirou fundo e continuou. “- Não precisa dizer mais nada. Seu peito já me disse tudo o que eu desejava ouvir. Obrigado, muito obrigado! Agora vá, e, por favor, não me interprete mal, mas acho que você achou o que procurava em sua jornada. Siga viagem, tome seu rumo.”

Enfim as palavras chegaram à boca de Alberto.

“- Não, não posso ir embora. Eu preciso te conhecer...”

“- Deixe-me primeiro saber quem sou, deixe-me que eu me descubra. Durante anos me senti presa. Durante anos não me senti. Você me fez perceber que eu tenho uma vida inteira pra viver. Seu ar de aventureiro fez com que eu recolhesse as ancoras, e durante toda a noite de ontem, após ter falado com você, costurei as minhas velas e voltei a traçar mapas e rotas. Deixe-me navegar também, e algum dia nós nos encontraremos. E, por favor, não diga mais nada. Não insista em ficar. Sua permanência aqui atrapalharia tudo. Você perderia muito tempo tentando descobrir algo que ainda não merece ser conhecido.”

E dizendo essas palavras, Adriana largou as sacolas - deixando cair as duas cebolas, os três tomates, a manteiga, o café e o sabão – virou as costas e saiu. Foi navegar.

Alberto estava feliz. Tristemente feliz. Tudo o que ele sabia daquela mulher, era que ela se chamava Adriana. Coincidentemente, isso também era tudo o que ela sabia sobre si.

Voltando ao quarto, ele arrumou as suas poucas coisas, pagou a conta e partiu.

Estava de volta ao mar, à procura de novos portos.

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Leia mais:

Sete Mares ( ou "Porto 0" )

Mar Adriático (primeiro mar) ou "Porto 1"



terça-feira, 1 de junho de 2010

Mar Adriático (primeiro mar)

Mar Adriático é um braço do mar Mediterrâneo que banha a Itália, a Eslovénia, a Croácia, a Bósnia e Herzegovina, o Montenegro e a Albânia. Nele se localizam as ilhas Jónicas e Dámatas, paralelas à costa. Ao norte fica o golfo de Veneza que outrora chegava até Ádria, cidade que deu o nome àquele mar.


Quatro dias após ter fixado o bilhete de despedida, na placa próxima ao porto, Alberto atracou. Tudo por causa daquela vista. Os cabelos dela possuíam uma ondulação digna dos grandes mares bravios enfrentados pelos primeiros navegadores. Eis o primeiro mar, dos sete, que Alberto pôs-se a desbravar.

A rua principal da pequena cidade, composta por imigrantes italianos, estava bastante movimentada, mesmo já havendo passada a hora costumeira em que as famílias jantam. Alberto procurava um albergue, pousada, praça, marquise... Qualquer teto que desse o mínimo de sombra aos primeiros raios de sol que surgissem. Nunca conseguiu adquirir o hábito de acordar cedo. “Gosto de dormir até acordar”, costumava dizer aos que o chamavam de preguiçoso.


“-Lindos cabelos.”

“-Obrigado”, respondeu secamente.
“-Posso saber seu nome?”
“-Não.”

“-Me chamo Alberto.”
“-E eu com isso?”
“-Calma, moça. Bela e brava... Lembra-me os grandes mares pelos quais navego.”
“-Logo se vê um marujo de primeira viajem... Sempre tentam bancar o capitão. É melhor tentar ancorar em outro porto.”
“-Espera! Não conheço ninguém nessa cidade. Sequer sei o nome dela. Poderia ao menos ter a gentileza de me indicar um local para dormir?”
“-Olha, já estou te dando papo demais. A última coisa que eu vou te dizer, é que existe uma pousada no fim dessa rua...”, nesse momento a mulher tirou da bolsa um pedaço de papel e com um lápis de olho escreveu. “-Toma - entrega o papel -, dizem que é barata e vagabunda. Talvez faça seu tipo...”. E com isso saiu a passos largos.


Alberto calou-se diante do mar revolto que acabara de encontrar. Seus olhos continuavam seguindo aquela mulher. Alberto não desistiria. "Em certos dias, mesmo os mares mais bravios, descansam, e sopram as velas auxiliando os homens do mar", pensou.

Quando as curvas daquela mulher sumiram nas curvas de uma esquina, Alberto lembrou-se do papel. “Hotel Pousada Sossego”. Depois da tempestade, a calmaria - é o que costumam dizer. Dobrando o papel para pôr no bolso da calça, Alberto percebeu que no verso havia algo escrito:


2 cebolas
3 tomates

Manteiga

Café

Sabão


PS: Adriana, diga a Seu Olavo que na próxima semana eu passo pra quitar a dívida no caderninho. Não se esqueça de olhar em quanto está.


Adriana...

sábado, 29 de maio de 2010

Sete Mares



Desde pequeno um desejo lhe ardia o peito e lhe tirava o sono. Agora já era grande, dono de si. Sabia o que queria. Realizaria seu desejo. Conferiu os suprimentos, os mapas, e a embarcação. Partiu. Em terra firme deixou apenas um recado, fixado numa placa próxima ao porto:

“Vou navegar pelos sete mares. Sentirei saudades!”
Alberto

E lá se foi Alberto. Ninguém sabe de quem ele sentirá saudade. Não tem família, amigos, ou mulher. Não tem nada. Ou talvez seja o nada tudo que ele tem. Diante da imensidão do mar, quem sabe seja justamente do nada a saudade que já começava a invadir-lhe o peito. Boa viagem Alberto. Só não se esqueça de escrever.