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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Não é que Pedro fosse um cara ruim, ele só não era um cara bom


Nunca abria a porta do carro, e o principal motivo era justamente por não ter um.
Não dava gorjetas, nem dez por centos.

Não fazia direito, medicina, ou engenharia.
Não ligava pra dia dos namorados, natais, ano novo... E considerava todas essas coisas de uma falsidade e cafonice sem tamanho que, regadas a consumismos exacerbados, não valiam a pouca grana que tinha.
Não paparicava a família dela. Na verdade detestava presentinhos, bajulações, abraços, beijinhos e qualquer coisa que demonstrasse um fingimento latente.

Pedro não era um cara bom.

E por todos esses motivos - e alguns outros mais -, Pedro acreditava não ser bem quisto pela família dela. Talvez uma mentirinha, um “teatrinho”, uma falsidade, tivessem lhe caído bem e amenizado as dores, mas não era do seu feitio. A sua recusa pela religião da família dela transformara todo o embate em uma guerra santa, que, assim como todas as outras, de santa só levam o nome.

Mas Pedro sempre foi teimoso. Um amante teimoso. Sobre sua amada descansava seus olhos, e sobre sua cabeça todos os planos de um futuro feliz. E foi assim que durante muitos anos Pedro encarou a vida. Vestia sua armadura e colocava seu elmo, preparando-se para mais um dia em que teria de lutar em nome do amor.

Lutou.

Hoje, aos 86 anos, com a armadura quebrada, o elmo rachado, e as duas alianças que usa na mão esquerda, Seu Pedro descansa no banco de uma praça.
Ele sabe que não é um cara ruim, apenas lamenta o fato de não ter sido um cara bom.

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Crédito da foto:
http://www.luizberto.com/wp-content/velho_em_banco.jpg


terça-feira, 1 de junho de 2010

Mar Adriático (primeiro mar)

Mar Adriático é um braço do mar Mediterrâneo que banha a Itália, a Eslovénia, a Croácia, a Bósnia e Herzegovina, o Montenegro e a Albânia. Nele se localizam as ilhas Jónicas e Dámatas, paralelas à costa. Ao norte fica o golfo de Veneza que outrora chegava até Ádria, cidade que deu o nome àquele mar.


Quatro dias após ter fixado o bilhete de despedida, na placa próxima ao porto, Alberto atracou. Tudo por causa daquela vista. Os cabelos dela possuíam uma ondulação digna dos grandes mares bravios enfrentados pelos primeiros navegadores. Eis o primeiro mar, dos sete, que Alberto pôs-se a desbravar.

A rua principal da pequena cidade, composta por imigrantes italianos, estava bastante movimentada, mesmo já havendo passada a hora costumeira em que as famílias jantam. Alberto procurava um albergue, pousada, praça, marquise... Qualquer teto que desse o mínimo de sombra aos primeiros raios de sol que surgissem. Nunca conseguiu adquirir o hábito de acordar cedo. “Gosto de dormir até acordar”, costumava dizer aos que o chamavam de preguiçoso.


“-Lindos cabelos.”

“-Obrigado”, respondeu secamente.
“-Posso saber seu nome?”
“-Não.”

“-Me chamo Alberto.”
“-E eu com isso?”
“-Calma, moça. Bela e brava... Lembra-me os grandes mares pelos quais navego.”
“-Logo se vê um marujo de primeira viajem... Sempre tentam bancar o capitão. É melhor tentar ancorar em outro porto.”
“-Espera! Não conheço ninguém nessa cidade. Sequer sei o nome dela. Poderia ao menos ter a gentileza de me indicar um local para dormir?”
“-Olha, já estou te dando papo demais. A última coisa que eu vou te dizer, é que existe uma pousada no fim dessa rua...”, nesse momento a mulher tirou da bolsa um pedaço de papel e com um lápis de olho escreveu. “-Toma - entrega o papel -, dizem que é barata e vagabunda. Talvez faça seu tipo...”. E com isso saiu a passos largos.


Alberto calou-se diante do mar revolto que acabara de encontrar. Seus olhos continuavam seguindo aquela mulher. Alberto não desistiria. "Em certos dias, mesmo os mares mais bravios, descansam, e sopram as velas auxiliando os homens do mar", pensou.

Quando as curvas daquela mulher sumiram nas curvas de uma esquina, Alberto lembrou-se do papel. “Hotel Pousada Sossego”. Depois da tempestade, a calmaria - é o que costumam dizer. Dobrando o papel para pôr no bolso da calça, Alberto percebeu que no verso havia algo escrito:


2 cebolas
3 tomates

Manteiga

Café

Sabão


PS: Adriana, diga a Seu Olavo que na próxima semana eu passo pra quitar a dívida no caderninho. Não se esqueça de olhar em quanto está.


Adriana...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A eterna epopeia do homem



De que vale o homem entender, cantar, escrever ou interpretar a alma feminina? Que fará mais ele da vida, depois de ter conseguido tal feito? Cantará feitos e glórias enquanto a vida passa? Pobre homem.

A grande - e eterna - epopeia masculina consiste na descoberta da alma de uma mulher. Nos jeitos, trejeitos, e rejeitos. Nas caras, na fala, e no silêncio. Jamais compreenderei a alma feminina.

Enquanto Jorges, Chicos, Tons e Vinícius, cantam as glórias de suas descobertas, eu sigo navegando sem saber quando, como, ou onde irei atracar. Refaço diariamente os cálculos e repenso as descobertas. Desfruto dos pequenos achados e reavalio os fracassos.

Da alma feminina não quero a glória. Sabe-se lá o que a alma de uma mulher nos guarda, e considero crime privar um homem dos prazeres dessas descobertas. Sou homem, sou navegador. Ela mulher. Mares nunca dantes navegados. Caminhando pelo seu corpo, guiado pela sua voz, ao som da sua respiração... vivo.