quinta-feira, 22 de abril de 2010

Smeagol domado


"Muitos que vivem merecem morrer. E alguns que merecem viver morrem. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para condenar à morte em nome da justiça, temendo por sua própria segurança. Nem mesmo os sábios conseguem ver os dois lados."
J.R.R. Tolkien


(O Senhor dos Anéis - As Duas Torres: Livro IV, Cap. I "Smeagol domado", Pág. 224)


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sentado eternamente em berço esplêndido


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Dezessete horas, esta é a quantidade de tempo que passo longe da minha cama, entre a hora que acordo e a que volto a dormir. Sete, é o número médio de ônibus que pego diariamente, segundo dados estatísticos dos dez dedos da minha mão. A cada sete ônibus que pego apenas dois ou três consigo me sentar. E desses dois ou três, apenas um tem vaga na janela.

Ah! A janela.

Santuário de descanso, onde recosto minha cabeça e durmo. Janela de ônibus. Olhando através dela penso que sou rei, bandido, velho, criança, penso apenas que sou eu. Ali é onde resolvo meus problemas, tomo decisões, crio projetos, salvo o mundo. Entre árvores, poste, shopping, poste, lojas, poste, crianças, poste, paradas (tsi!)... Poste... Penso no que farei mais tarde... Aos 83 anos.

Dizem que é dura, desconfortável, e o balanço do coletivo não ajuda. Digo apenas que é meu santuário. Meu berço. Desejaria uma viagem para bem longe, não importa onde fosse só queria ter tempo suficiente para repousar a cabeça e descansar na janela de um ônibus qualquer.


segunda-feira, 12 de abril de 2010

Salgado mais suco, é um e cinquenta


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A menina de sotaque carregado, do interior daquele Estado famoso, conversava comigo,enquanto a chuva batia na janela do ônibus, e eu tentava devorar um pastel de frango e um suco de cajá, que custou aos meus cofres a bagatela de R$ 1,50, ela falava entre, póitas e póiteras, sobre o quão difícil sua vida era. Quando seus pais rumaram ao nordeste, há cerca de dois anos, ela passou a morar em uma república com mais sete mulheres.

“Uma delas era veterinária e insistia em trazer animais estranhos para casa. Era gato sem pata, cachorro sem cabeça...”, contou. Não era difícil perceber a repulsa que a simples lembrança daqueles pobres animais trazia.

Ok, ela reconheceu o exagero na história do cachorro sem cabeça.

Após sair da república, a menina foi morar com o Joca.

Joca estudava Engenharia Florestal, e dedicava todo o seu dia ao cultivo e apreciação de certas ervas alucinógenas, cultivadas de forma caseira em pequenos jarros comprados na feira livre da Rua Felizardo Alegriano Mota. Ela nunca soube o nome de Joca.

“Nada contra - ela comentou – mas é que eu já não agüentava mais aquele cheiro adocicado que empestava minha roupa”.

A menina colocou as roupas em duas pequenas malas, e outros objetos menores numa pequena maleta, e saiu sem avisar nada. Alias, ela deixou um bilhete escrito na porta da farmacinha do banheiro: “Pare de fumar essa merda!”.

Sem avisar nada a ninguém, a menina de sotaque carregado que morava no Estado famoso, veio habitar junto com seus pais a província nordestina. Ela não sabe o que veio fazer aqui. Nem sabe direito porque ainda está aqui. Mas afirma que qualquer coisa é melhor que conviver entre animais mutilados e aromas adocicadas de ervas alucinógenas.

Hoje a menina pegou um ônibus num dia chuvoso e conversou comigo. Íamos para o mesmo destino. Contei as minhas desventuras e ela riu. Não que fossem engraçadas, ou que ela fosse besta. Ela apenas riu. Falei feito uma matraca sobre política, cultura e qualquer outra coisa que me veio à cabeça. E ela riu. Ao final, levantei e me despedi. Ela não lembrara meu nome. Incrivelmente minha memória não falhou. “-Tchau Helena!”.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Barbosa e o amor



E o coitado do Barbosa, depois de anos de batimentos cardíacos, percebeu que seu coração pra mais nada servia.

Ele não tinha mais sentimentos. Por nada, nem por ninguém. Aquele órgão apenas batia.

Tudo isso aconteceu provavelmente após ele descobrir que todos os seus sentimentos, gostos, desgostos, crenças e iras, são frutos de uma parte estranha do danado do cérebro.

Desgostoso com a descoberta, Barbosa decidiu não mais amar, não mais sofrer, nem sentir quaisquer sentimento que outrora em seu coração reinara.

Barbosa agora só pensa...

...e jurou jamais dizer a uma mulher que a ama do fundo do seu cérebro.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Bilhete para minha Pátria


"Oi?", foto retirada do meu Flickr!

Ok, já que é pra discutir relação em público e lavar roupa suja na frente de casa aproveito pra dizer que nunca amei você tanto assim minha Puta, digo minha Pátria. Sempre fingi não saber que você se vendia, me traia, me deixava oco no chão. Estamos quites, portanto. Desejo ainda que seja muito feliz sem este que tanto lhe amou. Darei um jeito também de ser feliz sem você. Nos encontraremos um dia, talvez, na próxima Copa, e fingiremos que não nos conhecemos até o primeiro gol, depois cada um pro seu lado. Acabou, pronto.

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Povo Brasileiro

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Texto escrito por @carllosllimaa como comentário em "Carta para minha puta".

terça-feira, 23 de março de 2010

Começa a 2ª Temporada


Os fatos comovem. Em todos os sentidos. No entanto, a falta de um tratamento adequado por parte da mídia, transformou o que seria uma matéria jornalística, em uma novela, ou até mesmo um seriado: “The Nardonis”.

A 1ª Temporada começou em 2008, quando ocorreu a lamentável morte da pequena Isabella, de apenas cinco anos de idade. Emissoras do Brasil inteiro encontraram aí uma boa fonte de renda e de audiência. “Isabellas” morrem diariamente das formas mais variadas. Mas a maioria atinge apenas o status de um curta-metragem ou apenas um teaser. Nunca chegam a se tornar um seriado.

Antes eu utilizava o termo seriado como uma forma de ironizar a situação do jornalismo brasileiro. Mas uma tia me fez mudar a concepção do termo. Em 2008 ela acordava todos os dias para acompanhar os capítulos transmitidos em detalhes pelo Recordiano “Hoje em Dia”. E com o mesmo tom que ela discutia o paredão do BBB e os dramas das Helenas, ela opinava, criticava, julgava os capítulos transmitidos em “The Nardonis”.

A 2ª Temporada já começou. “The Nardonis – O Julgamento” está sendo transmitido quase aos moldes de um Reality Show. Jornalismo em tempo real? Talvez. Mas ainda arrisco dizer que todo o roteiro, enredo, personagens e argumento já estão escritos. As câmeras posicionadas e a fotografia ajustada. Acredito que jornalismo não se faz assim. Seriados sim. Alguém arrisca dizer qual será o final?

Suplico aos raivosos, sensíveis, delicados e comovidos que não me mande à fogueira santa da inquisição por querer expressar aqui minha opinião. Também sinto muito o terrível ocorrido. Não duvido do sofrimento dos familiares. Da mãe, dos avós, amigos, família... E também desejo uma ação judicial descente para o caso. Só não consigo aceitar que programas de TV, jornais e outros veículos transmitam uma história baseada em fatos reais.


segunda-feira, 22 de março de 2010

Só ela sabe o que deve ser descrito

"Persistência", foto retirada do meu Flickr!


Cada lágrima minha não é por sua total falta de atenção, mas pela minha total discrição e medo. Se haviam laços de olhares, de abraços, tudo foi solto pelo compromisso assumido por você! Mas cada detalhe que vivo lembrando ainda sustenta o doce do amargo.


Ah... O amargo! Qual bela textura, lindo cheiro, palpável olhá-lo, porém, acabou, terminou o que nem começou (clichê?! É porque nunca usas-te) por falta de palavras, por excessiva timidez e grande desmotivação, pois é: desmotivação! Não sei se minha não sei se sua. Porque se houvesse motivação, haveria atração, afeição.


Sinto-me falhar nessa narração-descritiva. Há emoção, mas o que faltou foi uma profunda paixão por um dos dois lados. Como sustentar tal sentimento amargo desprovido de recarga?


Na verdade existe uma maneira cruel, algo mais forte que a dor, para, só então meu peito não se partir, a esperança a qual um dia findará junto à mim quando sem o suspiro da respiração eu ficar anestesiada pra sempre na felicidade de não poder sentir, sentir algo não sentido, não findado e nem começado.


Estarei nos meus sonhos onde posso controlar minha emoção ou bagunçar seu coração, onde tudo e nada acontece, onde nada perece e tudo é felicidade mesmo sendo o impossível, porque a impossibilidade não existe.


Nem ela... Nem ela a qual perturba a paz do existir. Ah... A paz! Belo e terrível o seu paladar, pois se esconde dos perturbados e não é reconhecida pelos excluídos de uma tribo, a tribo que tem o doce e afável olhar mais terno - olhar dos enamorados.


Não sei olhar. Mesmo olhando não percebo, pois flutuo na paisagem da paz e na agonia da solidão, assim fujo para o horizonte onde eu não vejo nada: nem você, nem o amor, nem a falta de percepção, nem a desistência, nem agonia, nem a dor ou a ausência dela. Não vejo nada e nem ninguém e nem vestígios de um dia ter sido Viva!


Alyne Barreto